sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Céu carregado

Agencia FAPESP - 04/04/2007
Por Thiago Romero

São Caetano do Sul é, pela segunda vez consecutiva, o município com maior densidade de raios no país. De acordo com dados do Ranking de Incidência de Descargas Atmosféricas por Município no Brasil, feito pelo Grupo de Eletricidade Atmosférica do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Elat/Inpe), caem cerca de 12 raios por quilômetro quadrado por ano no município paulista.
Unistalda e Itacurubi, ambos no Rio Grande do Sul, aparecem logo em seguida, com 11 e 9 raios por quilômetro quadrado por ano, respectivamente. O primeiro ranking foi divulgado em 2005, apenas para a região Sudeste. A principal novidade do novo levantamento é a expansão da área de cobertura, que mapeou de forma detalhada a ocorrência de raios em toda a região Sul, além de Mato Grosso do Sul e Goiás.
“As informações sobre o Sudeste foram confirmadas. De maneira geral, a região com maior incidência de raios permaneceu sendo a grande São Paulo, com focos crescentes em cidades do sul do Rio de Janeiro e sul de Minas Gerais”, disse Osmar Pinto Júnior, coordenador do Elat, à Agência FAPESP. “O fato de São Caetano do Sul ser bicampeão em incidência de raios mostra a consistência da metodologia utilizada.”
Comparado ao ranking de 2005, que tinha as dez primeiras colocações ocupadas por cidades da Grande São Paulo, o novo ranking conta com diversos municípios do oeste do Rio Grande do Sul entre as primeiras colocações. Fazem parte do ranking atual, que está disponível pela internet, 3.183 municípios.
Para chegar aos resultados, os técnicos do Elat dividiram o número total de raios incidentes em um determinado período de tempo pela área do município. A medição foi feita do início de 2005 a meados de 2006. “Com essa fração, conseguimos informações precisas sobre a densidade de raios em cada cidade, que podem subsidiar projetos de proteção para minimizar eventuais prejuízos”, explica Pinto Júnior.
Entre as medidas de proteção que podem ser aplicadas estão a instalação de mais pára-raios industriais e residenciais e o melhor dimensionamento das linhas de transmissão de energia elétrica.

Causas distintas

Segundo o coordenador do Grupo de Eletricidade Atmosférica do Inpe, a elevada incidência de raios no Rio Grande do Sul é explicada de maneira completamente distinta do que ocorre na Grande São Paulo.
No Rio Grande do Sul, em linhas gerais, a principal causa é a proximidade de cidades como Unistalda e Itacurubi do Paraguai e do norte da Argentina. “A localização desses municípios nessa região do continente, onde as tempestades são mais freqüentes e duram mais tempo, explica a maior incidência de queda de raios”, explicou Pinto Júnior.
Na Grande São Paulo, o maior vilão é o processo de urbanização. A grande quantidade de áreas asfaltadas responsáveis pelo maior aquecimento do solo, os prédios que dificultam a circulação do ar e a poluição dos carros que injetam ar quente e poluído na atmosfera são fatores que geram as “ilhas de calor”, que fazem com que a região se torne mais quente do que se não houvesse a urbanização. “Esse aumento da temperatura média na Grande São Paulo, que chega a ser até 5ºC maior do que em áreas localizadas próximas à cidade, faz com que o ar quente fique mais leve e suscetível a ser jogado para cima para formar tempestades”, disse.
O raio é resultado de tempestades que, por sua vez, são causadas por massas de ar úmidas e quentes que atingem grandes altitudes na atmosfera. Ao serem jogadas para cima e encontrar temperaturas mais baixas, essas massas de ar quente se transformam em gotículas de água e, posteriormente, em partículas de gelo. No interior das nuvens, o atrito das partículas de gelo faz com que as nuvens se carreguem eletricamente até dar origem ao raio.
Pinto Júnior destaca outro aspecto importante: os ventos úmidos que sopram do oceano Atlântico, na Baixada Santista, em direção à Grande São Paulo. Essas massas de ar batem nas montanhas da serra e chegam à capital do Estado. Ao encontrar as massas de ar quente originadas nas ilhas de calor, o ar úmido e ascendente resulta na combinação perfeita para a formação de grandes tempestades.

Vítimas e prejuízos

Osmar Pinto Júnior explica que os prejuízos causados pela incidência de descargas atmosféricas no país giram em torno de R$ 1 bilhão anuais, sendo R$ 600 milhões no setor elétrico. Em média, cem pessoas morrem por ano após serem atingidas por raios. “O Estado de São Paulo responde por cerca de 40% desses óbitos. Das 18 pessoas que morreram em 2007 no país, oito foram no Estado”, disse. Segundo o pesquisador, o número de pessoas que sobrevive é muito elevado. “Se cem indivíduos morrem todos os anos, a maioria por parada cardíaco-respiratória, pelo menos 500 foram atingidos.” Aproximadamente 60 milhões de raios caem por ano no Brasil. Uma nova edição do ranking deverá ser divulgada em 2009, com dados de outras cidades do Centro-Oeste e de alguns estados do Norte e Nordeste. “Nossa meta é disponibilizar, a cada dois anos, informações precisas sobre todas as regiões brasileiras para que possam ser feitos estudos comparativos levando em conta a variabilidade natural dos raios”, disse Pinto Júnior. Segundo o pesquisador, raios também são sensores naturais para a medição do aquecimento global. “É um fenômeno extremamente sensível às variações de temperatura. Com o acompanhamento de sua evolução, pode ser usado como indicador dos possíveis aumentos de temperatura na Terra, servindo como parâmetro para estudos sobre os impactos das mudanças climáticas no Brasil”, afirmou. Os dados do ranking são provenientes da Rede Brasileira de Detecção de Descargas Atmosféricas (BrasilDAT), que abrange os sensores da Rede Integrada Nacional de Detecção de Descargas Atmosféricas (Rindat), do Sistema de Informações Integradas baseado no Sistema de Detecção de Descargas Atmosféricas (Siddem) e da Rede de Detecção de Descargas do Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam).

Ranking de Incidência de Descargas Atmosféricas: www.inpe.br/ranking

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